Mariana Viegas

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Usa a fotografia - enquanto documento do real - na sua relação com o texto e o tempo - propondo a construção de narrativas que se revelam esculturas socias e/ou monumentos pessoais.

Uses photography - as a reality documental display - creating links between text and time, building narratives of social constellations and/or personal monuments.



Passagem

Em colaboração com
PORTA33, Nuno Faria e Pedro Falcão

2023


Resultado das residências artísticas na Escola da Vila, a peça Passagem integra o programa EIRA da Porta33, desenhado em conjunto com o curador Nuno Faria, que tem o objetivo de mapear a ilha do Porto Santo.
As pessoas retratadas neste projeto são todas habitantes do Porto Santo que de alguma forma se encontram ligados à Escola da Vila: construtores, professores, antigos alunos entre outros.
Por ocasião da exposição foi editado o livro com o mesmo nome com desenho gráfico de Pedro Falcão.
Passagem

In colaboration with
PORTA33, Nuno Faria and Pedro Falcão

2023



The result of artistic residencies at Escola da Vila, the piece Passagem is part of the EIRA da Porta33 program, designed together with curator Nuno Faria, which aims to map the island of Porto Santo.
The people portrayed in this project are all inhabitants of Porto Santo who are in some way linked to Escola da Vila: builders, teachers, former students, among others.
On the occasion of the exhibition, the book of the same name was published with graphic design by Pedro Falcão.






Este livro chama-se Passagem.
Foi editado por ocasião da exposição
com o mesmo título, realizada na Escola do Porto Santo. Mariana Viegas é uma artista portuguesa. O livro tem fotografias da sua autoria.

Rostos olham-nos de frente.
São figuras que emergem da escuridão.
Todas estas pessoas, de diferentes idades,
têm uma relação com a Escola da Vila.
Invisíveis, as memórias circulam no ar.
São atmosféricas.

O que nos diz um rosto que nos olha?
Esta é uma interrogação que as mulheres
e os homens têm desde há muito tempo.
O género do retrato é tão antigo como
a história da humanidade.
Um retrato é a imagem de uma pessoa (real ou imaginária), reproduzida por pintura, desenho ou fotografia.

Mariana Viegas tem vindo, desde há muitos anos, a usar a fotografia (e o vídeo)
no seu trabalho artístico. É uma forma de ver o mundo.
Ela mostra-nos:
— como o mundo pode ser estranho e enigmático; e
— como o tempo faz intimamente parte da
nossa vida.
E, no entanto, sabemos como é difícil dizer
o que é o tempo de forma simples.

Durante dias, Mariana Viegas fotografou,
retratou essas pessoas.
As sessões aconteceram numa sala da Escola.
Fazer um retrato é uma forma de relação.
Relação é sinónimo de semelhança, de parecença.

Alguém, no passado, chamou ao rosto a janela da alma.
O rosto, nas palavras dos filósofos, é uma lembrança de que somos humanos.
Somos porque os outros são.
Como num espelho, vemo-nos no rosto do outro.

Mariana Viegas interessa-se pelas diferentes formas de relação.
Ela mostra-nos que:
— um rosto pode ser tão amplo e profundo
como uma paisagem; e que
— reconhecemos o outro pelos seus traços
fisionómicos mas também pela memória do seu rosto; e que
— reconhecemos também o outro no movimento,
na passagem do tempo.

Um livro é um objecto que se segura entre mãos. Manuseamos e folheamos um livro: é uma forma de contacto. A palavra contacto faz parte do léxico da fotografia.
Em fotografia, a prova de contacto corresponde à imagem positiva obtida pela exposição do contacto dos negativos com
a folha de papel. Contacto implica toque, encontro, proximidade.

Como muitos artistas, incluindo os que
trabalham com fotografia, Mariana Viegas
interessa-se pela memória.
A memória é uma forma de ligação ao passado, aos seres e aos lugares.
O que liga tudo nas nossas vidas é a relação.
Relação significa uma acção de dar em retorno.

Mariana Viegas sabe que a vida é uma passagem.
Tudo é movimento. Um retrato é movimento.
Como muitos artistas, ela apaixonou-se
pel´a espantosa realidade das coisas.
Se olhássemos mais atentamente o rosto dos outros, e o nosso ao espelho, não haveria tantas guerras. Seria impossível haver.

Como escreveu Alberto Caeiro:
A guerra, como tudo humano, quer alterar.

Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito.
E alterar depressa.
(…)
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem.
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Há dois mil anos, no Egipto Antigo, foram criados os retratos mais antigos de que há memória.
São retratos de rostos, simplesmente.
Rostos que nos olham. Olham-nos em serenidade.
Em paz.
Olham-nos em vida.
Foram encontrados em escavações realizadas na região do Fayoum.
Por isso lhes chamamos os retratos do Fayoum.

Foram encontrados em túmulos e serviam
de rosto para os corpos mumificados.
Eram retratos de pessoas cujo nome não mais saberemos.
Contudo, estranhamente, quando os olhamos parecem ser próximos de nós.
Parecem ser-nos íntimos.

Mariana Viegas conhece os retratos do Fayoum.
Assim como todos os retratos de todas as
épocas, de todos os lugares. Pode imaginá-los porque existem na memória da humanidade.
Os retratos que realizou na Escola do Porto
Santo serão um dia, daqui a dois mil anos,
vistos pelos porvindouros.
E serão reconhecidos.
Não pelo nome, mas porque lhes parecerão próximos e íntimos. Porque neles, nestes retratos, se reconhecerão.
Nos reconheceremos.
Enquanto anónimos, que somos.

Nuno Faria
This book is called Passage.
It was published on the occasion of the homonymous exhibition,
At the Escola do Porto Santo.
Mariana Viegas is a Portuguese artist.
The photographs in this book are hers.

Faces confront us.
Figures that emerge from the darkness.
All these people, of different ages,
Have a relationship with the Escola da Vila.
Invisible, the memories circulate in the air.
They are atmospheric.

What does a face that looks at us tell us?
This is a question that women and men have been asking for a long time.
Portrait, as a genre, is as old as human history.
A portrait is an image of a (real or imaginary) person
Reproduced by painting, drawing, or photography.

Mariana Viegas has used photography (and video)
In her artistic work for many years.
It is a way of seeing the world.
She shows us:
- how strange and enigmatic the world can be; and
- how time is intimately part of our lives.
And yet we know how difficult it is to say what time is.

Nuno Faria





Edição | Editing
Frandu Almeida / Bodhgaya Films


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